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15/09/2004 - 23- Teste, obrigatório, pode causar morte



Coimbra: apnéia não traz benefícios

De acordo com a Resolução 1.480/97 do CFM, o teste da apnéia é de realização obrigatória pelos médicos como critério de declaração de morte encefálica. A morte encefálica, por sua vez, é condição imprescindível para a retirada de órgãos vitais para fins de transplantes. No entanto, estudos realizados especialmente desde o início dos anos 90 estão colocando em xeque a procedência ética do teste da apnéia.

O doutor em Neurologia e professor da Universidade Federal Paulista (Unifesp) Cícero Galli Coimbra, explicou que a realização do teste da apnéia pode levar pacientes que se encontram em um nível de coma reversível, situados na chamada zona de penumbra isquêmica, a um quadro de impossibilidade de recuperação.

As explicações foram apresentadas a um público variável, composto por médicos, enfermeiros, especialistas em saúde, juízes, promotores e profissionais do Direito, além de estudantes, entre outros. Segundo Coimbra, estudos realizados por pesquisadores norte-americanos a partir de 1994 mostram que “o teste da apnéia causa hipotensão (queda de pressão) severa em até 39% dos pacientes a ele submetidos, podendo acelerar ou causar a morte encefálica”.

Quando uma pessoa sofre um trauma craniano severo, há um aumento da pressão intracraniana, ou seja, ocorre, com a massa cerebral, algo semelhante ao inchaço que se verifica nas ocasiões em que alguém sofre uma contusão em alguma parte do corpo. Esse aumento da pressão intracraniana provoca a redução do fluxo de sangue no cérebro. O argumento básico que leva Coimbra a rejeitar a apnéia como um exame ético tem como ponto de partida exatamente o fato de que o fluxo sangüíneo não cai repentinamente de um valor elevado para um valor menor. “Ele não pode variar sem passar por faixas intermediárias, de 20% a 50% dos valores normais”, defendeu o pesquisador.

Nos casos em que há um fluxo sangüíneo intermediário, conforme Coimbra, existe ausência de atividade cerebral, mas não de vitalidade. Isto significa que o paciente encontra-se na zona de penumbra isquêmica, na qual é possível reverter o coma. No entanto, o teste da apnéia é aplicado tanto a indivíduos nesta situação de potencial reversibilidade quanto àqueles com total falta de oxigenação cerebral, para os quais não há mais chances de recuperação. “A apnéia não traz qualquer benefício ao traumatizado encefálico. Sem a realização desse teste, uma fração de pacientes poderá respirar durante a retirada de órgãos, acarretando responsabilidade aos médicos”, afirmou. Ao apresentar um relato de diversos procedimentos realizados com traumatizados encefálicos, Coimbra ressaltou que, num dos casos, foi detectado fluxo sangüíneo no cérebro de seis entre 12 pacientes, na ausência do teste da apnéia. “Eram pessoas na faixa de penumbra isquêmica”, explicou. Ele acrescentou que o teste da apnéia reduz ainda mais o fluxo de sangue no cérebro, “o que é um desastre para o paciente”.

Mesmo as precauções tomadas antes da realização desse exame, como a oferta de 100% de oxigênio ao paciente, são inócuas, disse o neurologista. “O problema não está relacionado ao oxigênio, pois a função respiratória não tem por objetivo apenas captar oxigênio, mas sim eliminar dióxido de carbono (CO2) produzido pelas células”, argumentou. “A elevação do nível de CO2 leva ao aumento da pressão intracraniana, o que pode desencadear um colapso respiratório.”



 

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