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02/08/2005 - Grande mídia ignora debate sobre morte encefálica
Em encontro no Vaticano, especialistas debatem se "morte encefálica" quer mesmo dizer "morte"
Por Carol Glatz
Serviço Católico de Notícias
A prática de coleta de órgãos vitais de pacientes determinados como mortos encefálicos foi colocada em questão por um número de médicos católicos especialistas em um encontro patrocinado pelo Vaticano (ocorrido na semana passada).
Alguns críticos do procedimento, que é legal nos Estados Unidos e em muitos países europeus, advertiram que a completa cessação da atividade cerebral pode não indicar a morte real da pessoa.
"Morte encefálica não é morte," disse o médico norte-americano Paul Byrne, ex-presidente da Associação Médica Católica.
Em um paciente com morte encefálica, "o coração bate, o corpo está quente, órgãos vitais como o fígado e os rins estão funcionando, e há respiração, embora sustentada" por um ventilador mecânico, disse o Dr Byrne durante o encontro realizado nos dias 3 e 4 de fevereiro, patrocinado pela Pontifícia Academia de Ciências.
O Papa João Paulo II convocou o encontro especial "a fim de reestudar os sinais da morte e verificar, em nível puramente científico, a validade do critério de morte encefálica", disse o chanceler da Academia, bispo Marcelo Sanchez Sorondo.
Em 1985 e, novamente, em 1989, a Pontifícia Academia de Ciências confirmou a morte cerebral como "o verdadeiro critério de morte, dado que a completa cessação das funções cardiorrespiratórias conduz muito rapidamente à morte encefálica", disse o bispo, nos comentários introdutórios ao encontro.
O bispo Sanchez disse ao Catholic News Service que a academia "convidou aqueles que têm posição crítica" à atual posição do Vaticano a respeito de morte encefálica e doação de órgãos para ouvir seus argumentos e determinar se há suficiente novo material para garantir uma outra assembléia mais formal.
O Vaticano quer manter um "virtuoso e justo" balanço entre dois extremos imorais, de apressar a morte de alguém e de recusar a permitir alguém de morrer, disse ele.
O bispo disse que as pessoas não podem impor "morte (eutanásia) mesmo com o propósito de salvar outra vida por meio do transplante", nem devem abusar do uso de máquinas de suporte à vida, que o Papa definiu como "tratamento médico persistente ou agressivo".
Em 28 de agosto de 2000, em palestra em um congresso internacional sobre transplantes, o Papa, também, cautelosamente, endossou a morte encefálica total como indicador de morte do potencial doador de órgãos.
Naquele pronunciamento, ele concordou com o consenso da comunidade científica de que "a completa e irreversível cessação de toda a atividade cerebral (do cérebro, do cerebelo e do tronco encefálico), se rigorosamente aplicada, não parece estar em conflito com elementos essenciais da antropologia".
Mas alguns médicos e filósofos debatem até que ponto o paciente morto-encefálico está verdadeiramente morto. A definição é importante, dizem eles, porque se a pessoa está, de alguma forma, viva, ou se sua condição é reversível, então a remoção de órgãos vitais para transplante é equivalente a um homicídio.
"Os órgãos são retirados enquanto a pessoa ainda está viva", disse ao Catholic News Service o Dr. Stuart Youngner, chefe do Departamento de Bioética da Case Western Reserve University em Cleveland.
De outra maneira, órgãos como o coração, os pulmões e o fígado não seriam mais viáveis para transplante, afirmou ele, porque quanto o coração e a respiração de um indivíduo param, órgãos e tecidos começam a se degenerar.
Alguns órgãos “como o coração, os pulmões e o fígado deterioram-se tão rapidamente que eles devem ser obtidos de corpos vivos", disse o Dr. David Hill, anestesista britânico.
Mas o crucial nos debates do encontro foi: até que ponto um corpo vivo sem funcionamento do cérebro é equivalente a uma pessoa viva?
"Zigotos humanos, blastócitos humanos e embriões humanos não têm função cerebral", mas a Igreja considera esses estágios muito primitivos de um embrião humano como ainda um ser humano com direito à vida, disse o bispo Fabian W. Bruskewitz de Lincoln, Neb. Um texto sobre esta observação foi disponibilizado no encontro.
O bispo também clamou para a questão da moralidade na doação de órgãos.
"Em fertilizações in vitro, as técnicas de transferência de gametas e procedimentos similares foram claramente instruídas como imorais, casais foram claramente advertidos de que não há direito intrínseco de terem crianças”, escreveu.
"Da mesma forma, deve ser necessário determinar, de um ponto de vista moral, bem como canônico, se existe o direito de haver órgãos doados de um ser humano para serem inseridos no corpo de outro”, disse ele.
O Dr. Didier Houssin, médico francês, disse, em sua apresentação, que o fenômeno da morte encefálica "resultou do progresso dos cuidados médicos emergenciais".
Traumas encefálicos massivos ou hemorragia cerebral e os danos resultantes ao cérebro não resultam mais em morte imediata porque "técnicas médicas modernas" de ambulatório e cuidado intensivo permitem rápida reanimação, disse ele, em sua apresentação.
O corpo de um paciente morto-encefálico parece vivo por causa de sofisticadas medidas de suporte á vida, tais como a ventilação artificial, disse ele.
"Explicar para uma sociedade inteira que uma vida aparente, tal como a morte encefálica, é de fato um estado de morte... não e uma tarefa fácil”, disse Houssin.
Mas a morte encefálica trouxe a possibilidade de nova vida através da doação de órgãos, afirmou.
Retirar órgãos vivos de um paciente com morte encefálica é "um ato de generosidade e dá sentido ao fim brutal e inaceitável do falecimento para a sua família enlutada”, escreveu.
O uso de órgãos após a morte encefálica é um exemplo de solidariedade que implica “a aceitação da morte após intensivos esforços de salvamento da vida” e a vontade de “lutar pela vida dos pacientes que esperam por um transplante de órgãos”, disse. (Catholic News, 4/2)
Fonte:
http://www.catholicnews.com/data/stories/cns/0500695.htm
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