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28/09/2004 - A morte encefálica é uma invenção recente

A Revista British Medical Journal, volume 325, de 14 de setembro de 2002, vem com a publicação “A morte encefálica é uma invenção recente”, que está reproduzida a seguir como “escolha do Editor”.

Cartas

A morte encefálica é uma invenção recente

Editor – O vosso reconhecimento explicito de que a “morte encefálica” é uma invenção recente para propósitos de transplante é muito bem-vinda e deve muito auxiliar a expor as falácias e deturpações associadas a essa suposta nova forma de morte, as quais têm sido ocultadas do público e da visão profissional por tempo excessivamente longo.1 Na condição de um dos indivíduos descritos como aqueles que batalham incansavelmente contra esse conceito e contra a má ciência que em que se apoia o seu diagnóstico, sinto-me grato pelo vosso apoio. Eu questiono a vossa afirmação, porém, de que a maioria dos médicos do Reino Unido sentem-se confortáveis com o conceito de morte encefálica. Encontra-se essa afirmação fundamentada cientificamente? Ou é mais provável que a maioria dos médicos não têm necessidade de pensar profundamente a respeito desse assunto – e decidam não fazê-lo?

A revisão à qual vossa senhoria se refere dá notícia do ênfase cultural do estudo de Margaret Lock.2 Uma consideração mais detalhada dos aspectos filosóficos e científicos será encontrada na antologia da autoria de Potts e colaboradores, a qual não se encontrava disponível para Lock ao tempo em ela escrevia seu estudo.3 Desde então, graças ao dispositivo de resposta rápida disponibilizado pelo bmj.com, o mais significativo progresso alcançado foi a larga disseminação do conhecimento relativo aos perigos do teste da apnéia (o qual é um elemento crucial no roteiro de testes propostos pelo Departamento de Saúde para o diagnóstico de “morte do tronco encefálico” ou “morte para propósitos de transplante”). Graças, particularmente ao trabalho de Coimbra, torna-se agora claro que o teste da apnéia pode exacerbar a lesão encefálica e mesmo provar-se letal.4 Sendo assim, e tendo-se em mente que o teste não traz qualquer possível benefício ao paciente que a ele é submetido, o seu emprego é claramente antiético.

Por quanto tempo, portanto, agora que esse risco encontra-se largamente conhecido, pode o Departamento de Saúde continuar a encorajar o emprego desse procedimento diagnóstico danoso – o qual, em pelo menos alguns casos no passado, pode haver assegurado o cumprimento do prognóstico alegado como invariavelmente fatal, prognóstico esse atribuído ao diagnóstico de “morte do tronco encefálico”?

David W. Evans – médico aposentado
Cambridge CB3 9LN
DWEvansMD@tinyworld.co.uk

1 Editor’s choice. Deep fears. BMJ 2002;324(7348). (8 de junho)

2 Gray C. “Twice dead: organ transplants and the reinvention of death” by Margaret Lock [reviewed]. BMJ 2002;324:1401.

3 Potts M, Byrne PA, Nilges R, eds. Beyond brain death – the case against brain based criteria for human death. Dordrecht:Kluwer, 2000.

4 Coimbra CG. Implications of ischemic penumbra for the diagnosis of brain death. Braz J Med Biol Res 1999;32:1479-87.

BMJ VOLUME 325 14 de SETEMBRO de 2002 bmj.com



 

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